O primeiro livro do qual me lembro, contava a história de uma sapinha que só queria comer guloseimas e ficou tão fraquinha que foi carregada pela ventania. Era uma leitura da escola infantil e eu tinha cerca de quatro anos. Minha mãe leu pra mim. Consigo visualizar as ilustrações do livro e lembro que as guloseimas da sapinha eram aranhas.
Noutra cidade, noutra escola, lembro-me da sensação de entrar pela primeira vez na biblioteca infantil. A bibliotecária, de fala sempre calma e suave. As mesas baixas, as estantes repletas de livros. Tapetes, almofadas no chão. Em minha lembrança, uma meia luz, que tornava o ambiente acolhedor. Sei que a luz branca é mais indicada, mas que diminui a sensação de aconchego, diminui.
Já no que chamamos hoje de Fundamental, adorava fazer pesquisa na biblioteca municipal. Gostava do som dos passos ecoando pelo salão. Lá, naquela época, os leitores podiam circular entre as estantes. Não sei se ainda é assim. Na verdade, nem sei se a biblioteca ainda existe. Muitos anos que deixei a cidade. Eu tinha um sapato que adorava usar quando ia à biblioteca. Os passos ecoavam mais alto no silêncio. Coisa de criança.
Noutra cidade (mais uma vez), já adolescente, morei a duas quadras de uma biblioteca. Fiz o cadastro e li muita coisa de lá. Na escola, era eu a encarregada de ler os livros obrigatórios e depois contar a história para os colegas que não haviam lido. Foi assim que conheci Machado, meu autor brasileiro favorito.
Sempre gostei de ler. Fui uma adolescente um tanto ensimesmada e os livros foram bons companheiros. São bons companheiros. Tenho primos bem mais velhos e, durante as visitas familiares, eram os livros deles que lia. Assim, li muita coisa que não era exatamente indicado para a minha idade e que precisei reler mais tarde. Mas os adultos não estavam muito preocupados, pra minha sorte. Nessa época, as personagens me atraiam. Suas experiências e sensações. Li muitos dos clássicos.
Na universidade (noutra cidade!!), mantive o hábito de ler ficção, mas as coisas foram apertando e chegou numa hora em que as leituras técnicas tomaram quase todo o tempo. Hoje, leio mais sobre ciências, política, educação. A sociologia e a antropologia têm me interessado bastante. E com isso, a ficção acaba ficando em segundo plano, sempre adiada.
Já escrever sempre foi mais complicado. Passei a adolescência e os primeiros anos da universidade escrevendo cartas para amigas e amigos que deixava nas cidades das quais me mudava. Hoje, frequento alguns fóruns de debates políticos e escrevo comentários, interajo com outros leitores. Mas, falta disciplina (e provavelmente autoconfiança) para uma escrita mais pessoal. Já tentei manter um blog, hoje abandonado. E acabo por escrever apenas por necessidade educacional ou profissional.
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